[aviso: post longo. Leia se tiver com tempo e saco. Se não, passa adiante, que não vai lhe fazer a menor falta. O objetivo do texto abaixo é fazer você sentir pena de mim em vez de invejinha como foi o meu drama pra conseguir chegar à sede do SPFW. Informação, mesmo, que é bom, não tem nada.]
Ufa! Consegui parar! Agora, deixa eu contar como foi tudo… Mas como é que eu começo a contar minha saga?
Bem, os manuais de jornalismo dizem que o lead (o primeiro parágrafo de uma notícia, no qual são respondidas as perguntas: Quem? O quê? Onde? Quando? Como? Por quê?) é uma boa forma de se começar uma história. Então, a coisa fica mais ou menos assim:
- Quem? Euzinha!!!!
- O quê? Passei uma tarde no São Paulo Fashion Week
- Onde? (É nessas horas que eu me antipatizo com o lead, pq ele assume ares de Lucianta Gimenez….) Dãããã… em São Paulo, no Parque do Ibirapuera, portão 3, no Pavilhão da Bienal
- Quando? Quinta-feira, dia 22 de janeiro
- Como? Ganhei um convite e fui prá lá!
- Por quê? Pffffff…..
Daí, tem-se o seguinte parágrafo em lead:
Euzinha passei a tarde de quinta-feira, dia 22 de janeiro, no São Paulo Fashion Week, que aconteceu esta semana em São Paulo (como o próprio nome diz), mais precisamente no Parque do Ibirapuera, no Pavilhão da Bienal. Eu ganhei um convite (Loo e Joo, obrigadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!) e fui prá lá. Por quê eu fui prá lá? Pffff……
Ficou uma merda, né?
É por isso que eu meio que antipatizo com a estrutura do lead. Mas o jornalismo online (enfiem o hífen onde bem entederem, mas façam-no de acordo com as novas regras ortográficas, s’il vous plaît!
tá acabando com essa estruturazinha arcaica, inventada pra driblar um possível pau numa máquina de Telex durante a Segunda Guerra Mundial (se a máquina desse pau no meio da transmissão, o resumo da história tava logo no primeiro parágrafo, então neguinho podia se adiantar na redação enquanto o mané continuava a enviar a notícia do front, enquanto apanhava do Telex e tomava bala no meio das ideias, tudo ao mesmo tempo). Ah, mas eu tô me alongando demais com historinhas desnecessárias! ‘Bora pra contar a história em ordem “cornológica” dos contecimentos:
22/01, marromeno 11:45 AM, São Paulo
Toca o celular. Eu, curtindo ainda a cama, não sei se me arrisco a levantar logo e sentir o enjoo (essa eu sei que não tei mais acento!) matinal típico de primeiro trimestre de gravidez, ou se fico mais um cadim e curto a preguicim na cama, ouço o benedito a tocar lááááá embaixo. Corro pra atender. O bicho para (tinha acento, não tem mais. Pelo menos acho eu.) de tocar quando eu o tenho em minhas mãos. Infortúnio.
Toca o telefone fixo, do lado da cama. Eu, que já estava voltando pra cama e ligando do celular pro número que me ligou, descubro o mesmo número a me ligar no fíquiço. Desligo o celular e atendo o telefone. É a Loo, do Vende na Farmácia?:
- Letícia? é a Loo, tudo bem?
- Oi, menina, há quanto tempo! Como vai você?
- Tudo bem. Olha, é só pra te dizer que você ganhou o ingresso pro São Paulo Fashion Week, viu? Então, tá a fim de ir hoje?
- Pffff….
- Você vai ter que pegar os ingressos em Pinheiros e ir pro Ibirapuera. O ingresso é válido a partir das 14:00, OK?
- OK…
É impressionante como certos acontecimentos otimizam a tomada de decisão de uma pessoa, não? Minha dúvida (”me levanto agora ou não?) dissipou-se num piscar d’olhos! (ou num tocar de telefones, como queiram…)
22/01, marromeno 11:50 AM, São Paulo
surto nº 1: Vou escovar os dentes. O diálogo com o espelho denuncia: estou com cara de “semana-que-vem-eu-me-depilo”. E os dedos de minhas mãos com ares de “ontem-nos-encontramos-com-dona-acetona” AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!
Solução para o surto: volto ao telefone, desta vez pra marcar hora com o sacrossanto salão de beleza daqui da esquina (que, além de fofo, é óóóóótemo), que, não por acaso, chama-se “Coisas de Mulher”. É, elas me entendem!!!!
- Andréa, aqui é a Letícia, tudo bem? Pelamordedeus, eu posso ir agora me depilar e fazer mão com vocês?
- Hummmm… pode ser 12:30, Letícia?
- Claro! Daqui a pouco estou aí!
Escovo os dentes, tomo café, vou conferir e-mails, troco de roupa, me despeço do Zé (o meu cachorrinho) e vou pro front.
22/01, 12:30, Salão Coisas de Mulher, São Paulo
Depilação, depilação, depilação, depilação.
Cutícula, cutícula, cutícula, esmalte, esmalte, esmalte.
Pronto! Estou apresentável.
Mas, enquanto estou no salão, vem o…
surto nº2: EU NÃO TENHO ROUPA PRA IR NO FASHION WEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEKKKKK!!!!! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!!!!
Claro que a perua aqui tinha que ter um surto desses, né? Aliás, que mulher (do tipo perua-viada-do-sexo-feminino, assim que nem eu, para que fique bem claro) não teria esse surto antes de um dia na SPFW?
Solução para o surto: Cher (Cher é o nome do meu único neurônio. Ele é um travesti em forma de mulher, que de vez em quando entra em loop e começa a cantar: “do you belii-iiiv in láif-after-love, after-love, after-love, after-love”, e daí pra sair do loop é um custo… Precisa ver só! Mas na hora do perrengue, Cher sabe se juntar e agir feito mocinha), enfim, Cher entrou em ação e partiu pra racionalização imediata: pensou numa roupa de frio que, quando usada pela última vez, a-ha-sou. Nessas horas, parto do princípio do preto e branco (não sei onde enfio o hífen aqui) básico, pra não ter que pensar colorido, e assim evitar que a indecisão coisa degringole de vez. A solução foi uma saia de veludo preta, com uma blusa de linha branca, justa, com zíper no meio, e um super-luper-híper-líper salto preto leeeeeendo, em vinil, todo forrado em pelica, comprado nos estêites por um tro-co. Eu usei esse modelito pela última vez num evento profissional, e fui elogiadésima. Pronto! Vou com esse outfit, sem nem me dar ao trabalho de me olhar no espelho (até porque, se eu me olhasse no espelho, sabia que iria implicar com a roupa). Toquezinho final de Cher: “pega aquela pashmina de cashmere que você comprou em Milão, aproveita que o dia tá frio e a-ha-sa, gata!” (A Creuza aqui já teve seus dias de Carrie Bradshaw, tá bem?) Point taken.
22/01, 14:00, São Paulo. Começa a validade do ingresso.
Chego em casa, tomo banho, não lavo o cabelo (que tá nojento, mas se lavasse iria me atrasar ainda mais, então vai escova com perfuminho nas madeixas, mesmo) e corro pro secador, pra fazer a escova. Ficou uma merda. O cabelo tava sujo (ó, tô abrindo o meu coração procêis, viram? Dêem um desconto, vai? Eu sei que vocês me compreendem…) que só(leo), e a escova simplesmente não pegava. Foi quando eu tive o…..
surto nº3: CADÊ A MINHA CHAPINHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA???????????????????????????????????
Solução para o surto: Foda-se a chapinha, fofa. Cê tá atrasada!!!! Tivira c’o secador.
22/01, 15:00, São Paulo
Saio de casa, de carro, rumo à marginal Pinheiros. Ninguém merece pegar Avenida Rebouças quando se está com pressa. E eu ainda tinha o agravante da segunda corrida contra o relógio: era o rodízio do meu carro! Rodízio é um feitiço lançado por bruxos muito malvados, que dizem que só assim eles conseguem salvar o planeta da poluição (desculpa pra não fornecerem um sistema de transporte decente nesta cidade). O feitiço funciona assim: seu carro não pode rodar de acordo com o dia e o final da placa pelo chamado “centro expandido de São Paulo”, um reino predefinido (acho que se escreve assim agora) por esses mesmos bruxos, entre as 7:00 e 10:00 da manhã, e das 17 às 20 horas, sob o perigo de tomar uma multa salgada virar abóbora. O meu carro, com placa final 8, é enfeitiçado às quintas-feiras. Isto significa que meu Palinho teria que estar parado, quietinho, dentro do estacionamento do Ibirapuera, antes das 17:00.
22/01, 15:45, Pinheiros
Chego ao meu primeiro destino. Pego o convite. Agradeço ao Samir e saio correndo – dentro dos limites de velocidade, pq não sou otária nem suicida. Tenho que estar antes das 17:00 no portão 3 do Ibirapuera. No meio do caminho, Judith Maria, minha personal lombriga, me lembra que eu ainda não almocei. E ela aprendeu a fazer motim com o meu feto, aquela…. desafeta!
22/01, 16:30, São Paulo. 30 minutos para virar abóbora
Chego ao Parque do Ibirapuera, aquela coisinha minúscula, por trás. Portão sete. Começo a circular o parque. Saio do perímetro do parque. Entro à direita. Faço retorno. Volto ao perímetro. Sigo até o final da Av. Quarto Centenário e….. cabou a rua! Dou meia-volta (ah, vai com hífen!). Volto para a Av. República do Líbano. A locutora avisa no rádio: Em São Paulo, quatro e quarenta e três. Sigo até o fim da avenida. Paro no sinal. Sigo de novo. Paro em outro sinal. “Em São Paulo, quatro e cinquenta e dois”. Finalmente, encontro o portão 3 do Ibirapuera! Eeeeeeeee!!! Entro no estacionamento. Rodo. Rodo. Rodo. Cadê uma vaga, porra?!?!?!?!?!!?!? Não tem. Pergunto pros marronzinhos da CET (os fiscais dos bruxos, que têm o talão poder de transformar o carro em abóbora) onde diabos eu encontro vaga. “Sai do estac ionamento, volta pro portão 3 e, em vez de virar à direita, vire à esquerda”! dizem eles. “Em São Paulo, quatro e cinquenta e cinco”. Saio do estacionamento (desesperada). Faço o retorno (correndo). Entro de novo no portão 3 (histérica). Viro à esquerda (à beira de um ataque de nervos). Rodo. Rodo. Encontro uma vaga. Paro o carro. “Quatro e cinquenta e nove”. (aposto que era quatro e cinquenta e nove mais cinquenta e nove segundos.)
22/01, 17:05, Estacionamento do portão 3 do Ibirapuera
Após trocar dinheiro, comprar tíquetes de estacionamento, voltar no carro e deixar os tíquetes no painel do carro, começo a andar o estacionamento rumo ao Pavilhão da Bienal. Uma caminhada e tanto, e com salto. Infortúnio. Ninguém merece. Ainda bem que a C&A providenciou aqueles carrinhos de campo de golfe pra transportar perua do caror pro pavilhão. Fui resgatada na esquina do meu carro. Tudibão!
22/01, 17:10, Pavilhão da Bienal
Finalmente, chego ao São Paulo Fashion Week. E deixa eu acabar este post mais-que-quilométrico!